7 de jan. de 2010 A Bruxa do Monte de Ascellon

Ninguém haveria de crer nesta narração que se compôs no dia das cinzas do ano de 1833. As almas costumam me contar suas próprias histórias, mas desta vez contam da mais temida e abominável criatura do gênero feminino que residiu em Ascellon, uma cidadezinha com aspecto semelhante a cidade de Assis na Itália. Essa de onde provem, enganado pelo próprio ideal o santo homem Francisco, não poderia, no mais distante e profundo imaginário ser comparada a Ascellon, cidade de gênese pagã. Nascida entre os milhares de descendentes da estirpe dos nórdicos, povo dominador e empreendedor das mais fantásticas façanhas do norte europeu, a jovem Nivictra, tinha a coragem de um viking. Seus cabelos rebeldes, esvoaçantes e anelados, lembravam o outono despendindo-se de suas folhas ao vento. Ela, em sua tez ferruginosa, uma ruivinha que gostava de meter sustos na garotada do parque Wilkerson, muitas vezes, causava assombro pelo destemor e por sua incontrolável ousadia. Fez seu primo Harlen ficar dependurado nas grades do colégio até o findar do turno escolar, sem que soubessem todos como conseguira o feito. O pobre destacava-se diane dos outros por ser dotado de medidas tão exageradas ao ponto de se confundir aos olhos de outrem com um adulto.
Os olhos da pequena lembravam os galhos das árvores secas no inverno, em sua pequenez parecia ouvir o vento como um código de tempestuosidade. Era, para ela, este um mensageiro revelador. Pedia silêncio a quem quer que estivesse ao seu lado, sem pudores, ética, educação, quando sentia afrescalhar-lhe a pele uma brisa que a contornasse. Isso constrangia a todos. Juravam sentir mergulhados naquele momento de magia, nada benfazeja, cercados de vertigens, arrepios e náuseas. Mais susto causava, entretanto, por se acreditar possuir junto aos elementos da natureza (o vento, a brisa, o fogo, a água etc.) forças naturais e sobrenaturais. Era concebida pelos populares como uma louca, uma demente.
De pele pigmentada, a ruivinha movia com interessante bailado as mãozinhas, buscando sentir algo que estivesse ao alcance de sua imaginação fértil. Nivi tinha cheiro de extratos fármacos e florais quando adentrava a sala de aula, algo que agradava a alguns e causava estranhamento a outros. Espertos, Paul Andersen e Peter Mc. Miller, dois colegas de classe, seguiram-na após um desses dias frios de inverno em que nada se têm a fazer em Ascellon e se deram, assim, conta do extraordinário mundo no qual a garota mergulhara. Dentro de vários tubos de vidro, garrafas e outros utensílios rústicos uma coleção de animaizinhos mergulhados, além de outros empalhados ao que tudo indicava. O formol e as soluções conservantes deixavam seu cheiro por toda a parte...Forte o cheiro, forte o olhar, quando, para a surpresa dos infantes, chocaram-se com os olhos da pequena Victa. Sentiram-se marcados por um selo à testa... Estavam sentenciados por ela a uma ameaça que se transmitiu somente ao olhar. Um segredo que cresceria enraizado àquele momento em suas almas adolescentes, sufocando o interior como se à janela dos olhos e da boca, quisesse uma gigantesca árvore escapar e de toda aquela escuridão se esquecer.
Um espectro sombrio e nebuloso os vigiava em sonhos...
"Ninguém, ninguém poderá vir a saber quem é Nivictra!"
O pesadelo e a mensagem que perpassavam aos dois, coincidentemente, nas mesmas noites, e, provavelmente, às mesmas horas da matina, faziam-nos acordar suados e febris... Temiam sequer pensar no episódio consequente daquele encontro, o qual falarei nas próximas linhas desse discurso.

2 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Bruno Resende Ramos disse...

Oi Paulo Ricardo,
Fico lisonjeado pelo fato de escolher "A Bruxa do Monte de Ascellon" para compor sua página, no entanto gostaria que me creditasse a autoria do trabalho que tenho publicado em livro e registrado junto à BN. Sou Bruno Resende Ramos, escritor mineiro e amante das narrativas fantásticas.
Assim que adotar os procedimentos legais me informe.
Sei que agiu de boa fé.

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